João Silvério
Writer & Curator
Português / English

Work in Progress: input vs. output

Por razões que não consigo explicar de uma forma muito clara, e que se encontram numa zona híbrida entre a referência quase poética e a presença aurática, é para mim presente um texto de Italo Calvino, La Strada di S. Giovanni, em cada momento que me encontro com o trabalho do artista Nuno Sousa Vieira. O texto que refiro está incluído num livro que colige exercícios de memória sobre a vida do autor, os quais se projectam sobre o mundo, criando uma certa tensão com o “seu mundo”, tudo o que o rodeava e pressentia um eco exterior. Este universo da experiência íntima é circunscrito por descrições do quotidiano, por vezes de tarefas domésticas, de certa forma como um mapa da sua relação com o que estava lá fora. Esse mundo exterior aparece como um correlato de acontecimentos que tenta escapar ao que é dizível, resistindo timidamente a ser expresso como linguagem.

Este entendimento da memória encontra um eco na obra de Sousa Vieira, como se esta fosse uma voz projectada no centro de uma torre panóptica que, percorrendo todas as passagens possíveis, nos devolvesse continuamente o mesmo timbre vocal, mas nos obrigasse a mudar de posição para entendermos que o verbo dito é, em cada instante, um outro. Como se fosse possível ultrapassar o embuste que o universo que nos é próximo cria e tende a persistir como um território uniforme e reconhecível.

É neste aspecto que o trabalho de Nuno Sousa Vieira nos pode surpreender. Ao contrário de nos propor um embuste, ou uma estratégia de desorientação perante a qual nos detemos, o artista trabalha a partir de um programa que tende, de modo crescente, a relacionar o seu universo pessoal, que compreende um movimento de apropriação de si mesmo, com significações universais que incorporámos nas práticas do nosso quotidiano.

Uma das questões principais da reflexão que o autor constrói encontra-se sediada num lugar, no atelier. É aí que o trabalho se desenvolve e se inicia um movimento do singular para o universal. A forma como nos põe perante o problema não corresponde a um enigma, mas a uma grelha rizomática que se materializa no uso da linguagem como um esquema topográfico e escultórico. Esta determinação do autor é visível de forma mais concreta em muitos títulos das suas obras, e neste caso em particular no título desta exposição: Don't Underestimate the Impact of a Workplace.

A referência ao workplace introduz uma das suas preocupações centrais, que visa uma corporalidade da memória enquanto processo de reflexão e produção das obras. Nuno Sousa Vieira trabalha num atelier que foi uma fábrica à qual esteve ligado um seu familiar, que aí trabalhou durante anos. Se é escassa, ou mesmo quase inexistente, a referência a esse familiar, o local de trabalho é, pelo contrário, um modelo do mundo, no sentido em que é possível extrair daí não apenas a matéria, mas também o arquivo (aqui a memória é já sujeita a uma selecção) e uma grande parte das ferramentas semânticas que emergem nos objectos artísticos que produz, e que o autor incorpora na experiência que nos propõe.

Não se trata apenas de expor ou descrever o inventário desse local ou espaço de trabalho, mas de o tornar parte do contexto e dos espaços que ocupa no processo expositivo. Há uma acção de recontextualização – e esta acção é diacrónica – do dado e da experiência, sempre precedida por um reconhecimento do lugar, e que se tornará visível pela inscrição de um ou mais objectos artísticos no uso diário desse novo espaço e na sua relação com o lugar a que pertence.

Como se incorporasse um implante que actualiza e amplia a nossa experiência perceptiva criando uma instância relacional, seja esta ao nível da simples funcionalidade de um equipamento ou ao da modificação de um espaço social ou até de uma mesa de trabalho.

Este sistema de relações, e de procedimentos, tem uma estreita ligação com a arquitectura. É na convocação de espaços outrora habitados que o autor desenvolve uma acção crítica sobre problemas internos ao processo artístico, tais como as questões relacionadas com o site-specific ou o context-specific. Aqui estamos de novo perante uma visão diacrónica dos modos de fazer e dos processos de significação da obra do autor, que se actualizam como presença na exposição.

A obra “Entrance” é exemplar do seu processo de trabalho. Esta obra é incorporada no edifício da galeria e substitui a sua porta de entrada por uma outra porta, alterada especificamente para este espaço (a porta pertenceu à fábrica onde o artista trabalha, o seu atelier). Sousa Vieira reúne numa única obra a experiência do lugar e a referência a um outro lugar através da presença física de um objecto que, não sendo desfuncionalizado, pois a porta continua a ser uma porta, remete para um dédalo de significações.

E recupera, na esteira da história da arte, a ideia de replicação, a repetição do acto (neste caso, de entrar e sair da galeria), convocando as formas de uso, a necessidade e a observação dos costumes que estão na base da organização social e reflectem numa edificação essa necessidade e consequente preocupação programática.

“Entrance” coloca-nos no centro da reflexão da obra do autor, numa perspectiva dualista entre singular e universal. Entre o que é permanente e o que é variável ou transitório, mas reconhecível. É na decisão do autor que reside o valor do seu procedimento, porque a porta foi pensada e transformada para aquele lugar mas pode ser de novo reinstalada. É na acção, que já contém a ideia de repetição, que reside a potência transformadora da obra de arte sobre o contexto que a acolhe.

A produção e a concepção das obras no seu atelier submete a nossa percepção a um exercício que ultrapassa a experiência visual e nos obriga a tomar consciência da memória para além do documento, ou do registo. A diferença está nas propriedades que as suas obras denotam, para além da pura visualidade que os materiais retirados da estrutura construída da fábrica revelam.

Essas obras foram peças de mobiliário, componentes da estrutura industrial que sustentava a actividade fabril ou objectos ali produzidos, que, tendo sido abandonados, perderam a sua funcionalidade e destino comercial, constituindo-se como amostras de arqueologia industrial que presentificam esse tempo passado como dados de um arquivo que incorporam o seu processo de trabalho como artista.

É na activação destes elementos de um projecto artístico mais alargado, que compreende toda a obra de Nuno Sousa Vieira, que a ferramenta semântica nos coloca perante um equilíbrio provisório entre significante e significado. Entre o objecto no seu estado presente, a obra de arte e os materiais que a compõem, ou a função que nos indexa o seu significado, inscrito no título da obra.

Este desnivelamento ocorre quando estamos em presença de uma escultura feita com elementos de madeira que se intitula “Chão Morto”. Desse modo, modo de usar e de fazer, emerge a memória como elemento de uma estrutura de religação entre espaços e tempos diferenciados, mas sucessivos, que simultaneamente mobilizam o nosso reconhecimento do que foi um passado, para nós imaginado e ficcional, que nos recontextualiza enquanto participantes desta exposição que se presentifica como uma acção. Como uma experiência dinâmica.

É neste âmbito que a referência ao trabalho é aqui evocada sob uma proposição dúplice ou polissémica. O processo para o qual somos convocados expõe-nos de forma crua no interior de uma estratégia de input vs. output que nos obriga a questionar a nossa relação com o tempo, mas essencialmente a nossa compreensão de uma acção política, no sentido em que somos convocados perante um sistema de relações sociais e de produção onde o processo artístico activa a memória como recuperação da identidade e a nossa experiência como consciência da alteridade.


João Silvério
Março, 2010